Em meio às celebrações dos 60 anos da TV Globo, volta e meia pipocam curiosidades da teledramaturgia que mereciam estar gravadas na memória de todo noveleiro raiz. Pois aqui vai uma daquelas pérolas que nem todo mundo se lembra: em 1997, Beatriz Segall, a eterna Odete Roitman de "Vale Tudo", e Taís Araújo, hoje estrela do remake da mesma novela, se cruzaram em "Anjo Mau"... e não foi um encontro qualquer.
Na trama, Beatriz Segall vivia Clotilde Jordão, uma socialite que já não tinha mais tanto glamour, mas mantinha intacta a pose de quem nunca perde a classe e, aparentemente, também o preconceito. Em um jantar chique na casa do empresário Eduardo Medeiros (interpretado por José Lewgoy), Clotilde avistou Vivian, papel que marcou a estreia de Taís Araújo na TV Globo aos 18 anos, e soltou, toda polida: “Você poderia conseguir um copo d’água, meu bem? Por favor".
A resposta de Vivian foi certeira como tapa de luva de pelica: “É melhor a senhora pedir para aquela moça ali.” E apontou nada discretamente para a verdadeira empregada, uma mulher branca. Clotilde, claro, ficou sem graça: “Me desculpe...” E se retirou. Clássico caso de racismo estrutural servido em bandeja de prata. Ou, no caso, de cristal.
A cereja do bolo veio logo depois, quando a personagem de Lavínia Vlasak quis sondar o climão: “Isso te incomoda?” Vivian, sem perder a dignidade (e sem cair na provocação), rebateu: “Imagina! Eu estou acostumada já. Já tenho uma longa experiência em preconceito e rejeição. Não esqueça que eu já fui menina de rua".
Na trama escrita por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Denise Saraceni, Vivian era uma ex-menina de rua que, acolhida por Cida, batalhou para estudar, virou aluna exemplar e acabou se casando com Ricardo, que largou a fútil Paula.
E como tudo se conecta em novela boa, olha que curioso: Glória Pires, que foi a dissimulada Nice em "Anjo Mau", era ninguém menos que Maria de Fátima na "Vale Tudo" original de 1988, onde brilhou ao lado de Beatriz Segall. O universo da teledramaturgia é mesmo um looping saboroso de personagens, tramas e climões históricos.
Hoje, 28 anos depois dessa cena, Taís Araújo carrega o bastão de protagonista como Raquel na nova versão de Vale Tudo. Já Beatriz Segall, que partiu em 2018, segue eterna na memória do público como a vilã mais icônica das novelas brasileiras: Odete Roitman.